17 de maio de 2007

Alice

Alice bateu o telefone com força. Estava uma arara – olho vermelho, mandíbulas apertadas de quem está prestes a cuspir fogo. O marido, calmo, regando uma samambaia, perguntou:

- O que foi, querida!

Amulher, que não estava muito a fim:

- Ah, vai se foder você também!!!

E foi para o quarto batendo portas. Segundos depois o telefone tocou e o marido, sem saber de nada, atendeu:

- Boa tarde, eu gostaria de falar com a Dona Alice...
- Ela não pode atender no momento, sobre o que seria?
- Seria só com ela mesmo.
- Quer deixar algum telefone?
- Não, não.

Desligou. A mulher voltou, ainda bufando, com a bolsa pendurada debaixo do braço.

- Vou sair.
- Querida, acabou de ligar um sujeito pra você.... Não disse quem era.
- E por que você não me chamou?!
- Você está tão nervosa, não quis incomodar.
- E se fosse coisa importante?!! Olha, Camilo, você está censurando meus telefonemas e isso eu não admito.
- Não foi censura, eu só não quis...
- Não falou quem era, não deixou telefone, nada?
- Não.
- Mas você é um bostão, mesmo. Nem pra anotar um recado.

Saiu batendo a porta. Camilo, por sua vez, não se abalou com as grosserias da esposa. Sentou-se no sofá e puxou do bolso um fininho muito bem feito. Agata, a gata da família que estava saracoteando por ali, ao ver os movimentos do dono, foi direto para o colo.

- Quer fumar, gata, quer?

Fumou traquilamente seu baseadinho, com a gata no colo, sentido aquela brisa. O telefone toca novamente, mas Camilo decide não atender:

- Se for pra mim, faz de conta que não estou. Se for pra Alice, paciência, ela não está, mesmo.

Mas o telefone tocou, e depois tocou de novo e mais uma vez... Até que venceu o natureba pelo cansaço: Quando atendeu, ouviu uma voz cavernosa do outro lado:

- Pegamos a sua mulher.
- Como?
- Seqüestramos sua esposa. Ouve só.

E colocaram uma vozinha no telefone pedindo:

- Socorro, meu amor... Faz o que eles mandam, eles já me bateram, se você não der o dinheiro pra eles, eles vão me matar.

Voltou a voz cavernosa.

- A gente mata ela.
- Espera um momento.

Depositou o telefone no gancho e, vagarosamente, começou a pular e gritar:

- Uh hu!!! Uh hu!!!

Porém, sua comemoração durou pouco, logo a esposa voltou:

- Tá comemorando o que, bundão, ganhou na loteria?
- Mas, como?
- Esqueci minha pasta. Tô a meia hora ligando aqui, uma hora ninguém atende, noutra dá ocupado... Você não serve nem pra atender telefone, pô.
- Acabaram de ligar, disseram que você tinha sido seqüestrada.
- Era trote, seu banana! Você não lê jornal, não.

Saiu batendo a porta, sem falar tchau. Camilo sentou-se no sofá, olhou pra gata e pensou em acender outro, mas desistiu... A vida não estava sendo muito boa com ele, ultimamente.

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