2 de maio de 2007

MANIFESTO CONTRA A PALHAÇADA

Tomaram conta da Paulista, um bando, todos com nariz de palhaço e bandeiras coloridas. Na frente do Masp alguns carregavam caixõezinhos para fazer um enterro simbólico, do outro lado, uns senhores vestidos de pizzaiolo serviam pizza como forma de ironizar: "Neste pais tudo acaba em pizza". Um caminhão de Trio Elétrico parou em frente ao prédio da Gazeta e lá de cima começaram a despontar celebridades como Supla, Nação Zumbi, Taide, Zezé de Camargo e Luciano, Sandy sem Junior e outros tantos artista que aderiram ao movimento. Os manifestantes iam surgindo às pencas, fazendo a avenida se transformar num mar de insatisfeitos com nariz de palhaço.

Chegaram então os jornalistas e fizeram um escarcéu, helicópteros filmavam com grande entusiasmo aquela maravilhosa festa da democracia. Datena, em seu programa, narrava emocionado: " Estão vendo como o nosso povo é valente? O brasileiro está mostrando que sabe reivindicar os seus direitos. Está mostrando que não deixa barato!!! É isso aí: o povo na rua e vagabundo na cadeia!" Vai daí que alguns jornalistas, se deram conta: mas afinal, essa manifestação é contra ou a favor de quê? Começaram a especular e não conseguiram nada, não encontraram um organizador do protesto, nem ninguém que esclarecesse aquele batalhão de descontentes. Aquele movimento se tornou uma espécie de manifestação ecumênica onde cada um protestava contra o que queria, e de fato, tinha de tudo, o pessoal do PSTU contra a ALCA e os patrões-burgueses, a turma radical da Heloisa Helena contra a administração frouxa de Lula, os perueiros contra o bilhete único, os Raul Seixistas a favor da Sociedade Alternativa, os estudantes contra tudo e a favor da farra e até a "Liga dos Adoradores do Pé da Gianne Albertoni" protestavam contra a loja Doce Vita que tinha retirado de sua faixada o enorme painel com a modelo para colocar no lugar a foto de um sujeito dando banho num cachorro.

A manifestação terminou como todas as outras: algumas personalidades da intelectualidade baiana estrategicamente radicados em São Paulo discursaram acaloradamente sobre o nada e antes que o povo dispersasse de vez, veio a apoteose: Fafá de Belém subiu ao palco e cantou, com lágrimas escorrendo pelo rosto o Hino Nacional e logo após veio um enorme foguetório e um gaiato ao microfone gritando a todo vapor: "Viva o Brasil!!! Viva o Brasil!!!"

No dia seguinte, todos os jornais deram a primeira página ao protesto que batizaram de "Manifestação contra a palhaçada" e, justificaram o nome dizendo que aquele evento fora na verdade um exorcismo da população brasileira contra as diárias papagaiadas que somos obrigados a engolir e no final, foram unânimes no diagnóstico: seja qual for o motivo do protesto, o maior vitorioso foi, sem dúvida, a democracia brasileira... Pode até ser, mas esta estória teve outro vendecedor, o empresário Armando, dono da Fábrica de Nariz de Palhaço Vaga-lume que matematicamente arquitetou todo aquele auê conseguindo o maior record de vendas na estória das fábricas de artigos lúdicos.

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