22 de julho de 2008

Trezoitão no desafeto

Everton foi atrás de uma arma de segunda mão, calibre baixo...

- Com essa daqui, dá pra matar alguém?
- Olha, senhor, pra matar essa não é a ideal. Essa é mais pra assustar, pra mulher levar na bolsa... Se o senhor tá com algum desafeto, tá querendo derrubar um, eu aconselho o senhor a levar um três oitão ou uma sete meia... Essas não tem erro e quem não tem experiência com tiro consegue até fazer um estrago.
- Mas essa daqui, se atirar em alguém, de perto, ela resolve o problema, não resolve.
-Ó, se o senhor atirar aqui, ó, bem em cima do umbigo, pode ser até com revolver de espoleta que o desafeto morre. Demora uns dez, quinze minutos mas o cara morre.
- Então eu vou ficar com essa, mesmo.
- O três oitão é quase o mesmo preço... Compensa mais.
- Três oitão faz muito estrago... Sai mais sangue.
- O calibre é maior, né... Mas, ó, sangue vai sair de qualquer jeito... Se o senhor quer um serviço limpo, eu tenho chumbinho pra matar rato, chumbinho dos bons, mesmo...
- Chumbinho?..
- As pessoas envenenam muito com chumbinho. É que não sai notícia no jornal, porque quem usa mais é gente pobre. Quando é caso em família, o chumbinho é bastante usado... Eu não sei qual é o caso do senhor, se o senhor tem proximidade com o desafeto, também, nem quero saber, mas, se o senhor tem interesse em matar sem fazer sujeira, essa pode ser uma solução.
- E usa como? Mistura na bebida?
- Na comida, né... Na bebida o cara vai perceber. Mas não tem erro... Vamos supor que o desafeto seja o seu sócio. Você chama ele pra um berinight, serve um uisquinho e depois que o cara já tomou umas três, já tá com o paladar meio avariado, você serve uma porção de calabresa com chumbinho. Garanto pro senhor que, daí pro dia seguinte o cara tá morto. E vai morrer no vaso, ainda por cima, com as calças na canela. Dá pra imaginar que coisa mais humilhante?
- Eu vou ficar com a arma, mesmo.
- O três oitão?
- Não, a vinte e dois.
- Veja bem, eu sei que eu já falei isso pro senhor, mas o senhor tá fazendo um negócio meia boca. O senhor pensa que só o senhor é que sabe das coisas? Acompanha: se o senhor tem um desafeto, o desafeto tem o senhor, não tem? Então, se o senhor tá planejando matar o cara, o cara também pode estar planejando te matar. Vamos que, na hora que o senhor sacar sua pistolinha o cara vem e desgruda da cintura um trezoitão? Cê tá perdido! Mesmo que o senhor consiga atire primeiro, ele vai ter uns vinte minutos pra brincar de tiro ao alvo contigo antes de morrer. Vai os dois pro saco.
- Pode ficar tranqüilo que isso não vai acontecer.
- O senhor é que sabe, agora, na minha opinião, essa é a economia mais idiota que eu já vi alguém fazendo... A vida é uma só, cara?
- Tá, vamos supor que eu leve o trinta e oito...
- O senhor não vai se arrepender... Nenhuma arma supera o trezoitão... Nenhuma!
- Vamos supor que eu leve... Se eu levar, eu ganho quantas balas.
- Olha, eu não costumo fazer esse tipo de promoção, mas, como o senhor aceitou a minha opinião, eu vou te dar três balas. Três tá bom? Quantos desafetos o senhor tem?
- Três tá bom, mas, pensando bem, eu acho que vou ficar com o vinte e dois, mesmo!
- A pistolinha, doutor!?! Olha, o senhor me perdoe a ousadia mas eu tô achado que o senhor não tá querendo é derrubar ninguém tá querendo é fazer farol por aí com essa porrinha... Agora, é o seguinte, o senhor leva a arma, mas depois não vai vim reclamar ou puxar meu pé, não, né?
- Pode ficar tranqüilo. Eu assumo todos os riscos.

O vendedor embrulha a arma num jornal e entrega a Everton.

- Olha, toma cuidado que eu deixei duas balas no pente. Duas dá, né? Quantos desafetos o senhor tem? Duas dá, não dá...

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