7 de agosto de 2008

PASTELARIA BOA NOVA CONTRA AS FORÇAS DO BEM.

As vendas na Pastelaria Boa Nova iam de mal a pior, até que o proprietário, Zé Maria, teve a brilhante idéia de fazer uma versão brasuca dos pasteis da sorte chineses e rechear os petiscos com papeizinhos que tinham escritos, de um lado, frases de pára-choque caminhão do tipo: "se tamanho fosse documento, elefante era dono do circo" e do outro, a estampa de um bicho e uma milhar correspondente para o freguês fazer uma fezinha. Sucesso garantido. Em dois meses as vendas triplicaram e o português conseguiu finalmente quitar suas prestações atrasadas das Casas Bahia.

Tudo ia bem até que num belo dia, um pastor evangélico,muito conhecido no pedaço, resolveu matar a fome com um pastel de carne. Deu a primeira mordida, achou o bilhetinho e nele leu a seguinte frase: "se barba fosse respeito, bode não tinha chifre" e do outro lado a figura de um burrico e a milhar 4011. O religioso que ostentava um enorme cavanhaque de percussionista de banda pernambucana, quando leu o que leu espantou-se e, com os olhos esbugalhados, proferiu baixinho: "tá'marrado em nome de Jesus!". O motivo de tanta perturbação era que a máxima lhe caiu como uma luva. A muito tempo desconfiava (e os vizinhos alertavam) que enquanto orava com os fieis no templo, a patroa, se esbaldava no lar com os infiéis. Questionou por alguns segundos: "será que essa mensagem foi mandada por Jesus como um alerta ou é obra do tinhoso?" Logo que deu a próxima mordida no pastel, quebrou o pivô num caroço de azeitona. Não restou dúvidas, era mesmo obra de Satanás. Foi até o caixa e, depois de desejar a paz de Jesus ao português, mandou ver: "Olha, essa tua pastelaria tá amarrada! Tá cheia de encosto. Você precisa de uma sessão de descarrego pra limpar o ambiente." O alentejano que não tinha freios na língua começou a resposta com "quem tá com encosto é a..." e terminou com todos os palavrões que conhecia. Travou-se então uma discussão curiosa: de um lado o pastor evocava as forças do além e do outro o portuga xingava as gerações passadas e futuras do rival. Nem um dos dois cedeu e nas entrelinhas ficou combinado que um não passaria nem na porta do estabelecimento do outro.

A estória acabaria em água de bacalhau, se o Pastor não fosse rancoroso e obstinado a expulsar os demônios do mundo. A partir daquele dia, o religioso dividia seu culto em duas partes: na primeira, como de costume, pedia contribuições financeiras aos fieis e a segunda parte era achincalhar a pastelaria Boa Nova, invocando aqueles que lutavam junto as forças do bem para boicotarem o estabelecimento, até que se rendessem a uma sessão de descarrego que tirasse o diabo do local.

Como a pastelaria ficava em frente ao templo e 90% dos fregueses eram evangélicos, o boicote pegou e os lucros voltaram à estaca zero. O português lutou o quanto pode, mas vendo acumular novamente, sobre a mesa, os talões vencidos das Casas Bahia, resolveu render-se a sessão. Antes do dia crucial, porém, resolveu relaxar um pouco visitando uma velha conhecida. Quando entrou e encontrou a mulher (com pouca roupa, como de costume), foi taxativo:

- O corno do teu marido venceu!!! Hoje vou fazer a tal sessão de descarrego...

- Que é isso, meu amor, deixa isso pra lá e me beija, vem... me beija...

2 comentários:

LadoZ disse...

Reciclagem?!???!???!

Valdir Medori disse...

Recordar é viver!