1 de dezembro de 2009

O homem das olheiras hediondas

Embora tivesse guarda-chuva, resolveu não abrir. Debaixo da marquise acendeu um cigarro e ficou olhando os pingos contra o muro cinza. Um outro atravessou a rua e foi até ele. Empresta o isqueiro? Ele entregou sem esboçar nenhuma reação. Os dois fumavam de frente para a chuva.

~*~

Ela e ele sentados à mesa, frente a frente. Ela.
"Você precisa comer."
"Não tenho fome."
"Suas olheiras..."
"Se eu fosse velho..."
"Você parece velho."
"Eu sou velho."

~*~

(Hipótese 01) O que pediu o isqueiro:

"Por que não usa o guarda-chuva?"
"Porque não quero."

~*~

Ela.
"Tenho esquecido de fazer as coisas. Ontem não fiz almoço. Quando vi já era quatro. Tomei chá... tomo muito chá. Chá alimenta."

Ele olhava na direção dela, mas via a fruteira atrás dela.

~*~

(Hipótese 02) O que pediu o isqueiro:

"Por que não usa o guarda-chuva?"
"Está quebrado."

~*~

Ela.
"Daqui a pouco chove. Ouviu o relâmpago?.. Sempre chove quando eu lavo os lençóis. Sempre.

Ele.
"Sempre."

~*~


(hipótese 03 - a última e mais aceitável) O que pediu o isqueiro:

"Por que não usa o guarda-chuva?"
"Gosto da chuva."

~*~

Ela.
"Vai sair?"
"Vou."
"Onde?"
"Ali."
"Vá de guarda-chuva."

~*~

O que pediu o isqueiro fumou e arremessou a bituca numa poça cor de óleo. Obrigado amigo. E foi. A chuva continuava. Ele pensava na casa arrumada e dedetizada e nos lençóis geometricamente dobrados dentro da gaveta. Em menos de uma hora estaria de volta, dentro da casa. Um carro parou à sua frente e de dentro alguém acenou. Ele olhava em direção ao carro, mas via os pingos batendo contra o muro cinza atrás do carro.

3 comentários:

Daniella Murias disse...

uau. amei. e ponto.

99 disse...

Ô Valdir,
leu o José Roberto Melhem, "uma tarde destas"

Valdir Di Medori disse...

olá, 99, como vai o agente 86?