7 de maio de 2014

VIGIAI, MY FRIEND, VIGIAI!

Conheci Miriá logo depois que começaram os linchamentos. Na ocasião eu estava fugindo de um, descendo a Augusta feito um destrambelhado.  Se não me engano, na esquina com a Peixoto Gomide um fusca azul escuro parou na minha frente e a porta abriu.

"Entra."

A motorista era magrinha, bem magrinha.  Arrancou o carro e ainda pude ouvir os xingamentos e a revolta do povo pelo retrovisor. Estava salvo, mas aí pensei que aquela mulher poderia estar me levando pra um linchamento ainda maior. Resolvi perguntar:

"Você está me levando pra um linchamento ainda maior?"
"Não"

Silêncio enquanto recuperava o fôlego. Até que veio a questão inevitável:

"Você fez alguma coisa?"

Sim tinha feito. Cometi três delitos em um. Estava tomando um stanheguer no balcão de um bar perto da Paulista e, distraído, fiquei olhando o decote de uma garota bem na minha frente. Cometi aí, inconscientemente, o crime de lasciva. Então, um sujeito raivoso me cutucou pelo ombro - perdeu alguma coisa?  -  foi então que cometi o segundo erro, o do preconceito: "Pfff, é meio gordinha..."

Gritaram "Pega!". Saí correndo e o linchamento estava armado.

O terceiro delito (e mais grave) cometi antes do primeiro, que  foi  estar distraído.  Lembrei de um pôster que vi uma vez num bar em São Luís que tinha uma imagem de Cristo e a citação "Vigiai, my friend, vigiai".

Quando a magrinha perguntou achei melhor não contar a história toda. Respondi apenas:

"O povo anda muito raivoso."

Ela deu de ombros.

"Por que me salvou?"
"Não gosto de violência."
"Obrigado... "

Passamos pela praça da República e vimos dois linchamentos,  no primeiro, cerca de umas cem pessoas massacravam uma mulher de mais ou menos 50 anos. O segundo era mais modesto, uns vinte linchadores atacavam um rapaz franzino. O curioso deste último é que o rapaz estava quase morrendo, mas continuava de óculos. Penso que talvez ele tivesse algum elástico que o prendesse firme em volta da cabeça e aí me ocorreu que ele poderia estar apanhando justamente por usar esse tipo de assessório. Vigiai, my friend, vigiai.

"Você não tem medo de sair na rua com essa onda de linchamentos?"
"Esse fusquinha vai de 0 a 100  em 4,8 segundos.  Quando os linchadores pensarem em me pegar, eu já estou em Campinas."
"Você é de Campinas?"
"Não."
"Quer beber alguma coisa?"
" Eu não desço do meu carro."
"A gente pode parar num posto rapidinho e pegar alguma coisa, o que acha? "

Ela pensou por alguns segundos e "Tá bom!". No primeiro posto que paramos, outro linchamento. Atacavam o que, pelo uniforme, parecia ser um mecânico. Esse grupo de justiceiros se diferenciavam dos outros porque tinham cachorros. Cada um com o seu, mas os cães não agrediam, ficavam ali, um cheirando a bunda do outro, enquanto seus donos sentavam o braço no pobre homem.

Melhor seguir adiante. A alguns metros vimos um carro parado e diante dele um vira-lata atropelado.  Eis o motivo do último linchamento.  Vigiai, my friend, vigiai.

Conseguimos bebidas em um bar perto dali. Tive que saltar do fusca em movimento (20km/h), correr até o bar, comprar as bebidas e sair correndo atrás do fusca pra entrar de novo. Essa travessia despertou alguns linchadores que estavam na rua e ao me ver correndo acharam que eu tinha culpa no cartório.  Apertei o passo e entrei no carro pela janela.

"Qual o seu nome?"
"Miriá."
 "Bacana. É Grego?"
"Hebraico, eu acho... E o seu?"
"Valdir."
"É russo?"
"Russo."
"Legal."
"Sabe, um dia, há uns 3 anos mais ou menos,  eu estava em São Luís e vi num bar um  pôster com a imagem de Jesus e a citação  'Vigiai, my friend, vigiai'" Não sei porquê, isso não me sai da cabeça.”
"A imagem era de Jesus, mesmo? Não era, sei lá, Bob Marley ou Frank Zappa?"
"Não, era Jesus mesmo. Aquela imagem clássica do Zefirelli. O cristo loiro, olhos azuis barba bem penteada..."
"Aquele da L.B.V.?"
"Esse mesmo."

Passamos pela Duque de Caxias.  Uns 200 ou 300 vingadores tinham invadido um albergue da prefeitura. Ao contrário dos outros esse linchamento era mais silencioso. A impressão que tive é que o pessoal que apanhava estava apanhando com certa resignação. Apanhavam calados.

Eu tinha uma garrafa de Dreher.  Miriá, uma de Martini Bianco.  Fomos bebendo quietos, rodando, sem rumo, a cada esquina uma nova cena de violência. Veio a dúvida:

"Onde vamos parar?"

Que foi respondida com a mesma pergunta:

"Onde nós vamos parar?"

Vigiai, my friend, vigiai.

Um comentário:

Cesar Augusto disse...

Muito bom! Curioso que passei por um linchamento, hoje, logo pela manhã... uma justiçagem qualquer numa comunidade de mendigos, próximo ali do Viaduto Pedroso. Enfim, não sei se por essa razão, mas, o trânsito na vinte e três estava insuportável.
Abração.