26 de junho de 2015

A arte de dissecar o tomate - Parte 03


Mayara me chamou pra uma meditação dentro de um ônibus. O piloto era um mestre yogue que dizia ter 158 anos. Fiquei meio apreensivo com a questão da carteira de habilitação e tudo mais... Na verdade fiquei pensando se o DETRAN estipulava uma idade limite pra dirigir. Não pesquisei, mas acredito que não. Uma vez habilitado, não importa se você tem mais de 150 anos, desde que esteja enxergando bem e que sua pressão bata na casa dos 12x8.

Nos encontramos às 18h num ponto da 23 de maio. O ônibus estava lá e o guru motorista aparentava ter muito mais que 158 anos. Fiquei um pouco preocupado... Abriu a porta:
“A meditação é cem reais.”
“Ah, tem que pagar?”
“Manter um ônibus desse porte custa dinheiro, meu caro.”

Convenhamos, o busão não era lá desse porte todo. Parecia um ônibus da CMTC, sem bancos e com uns colchonetes encardidos pregado no chão.

Pagamos e nos sentamos em posição de lótus em um dos colchonetes. Tinha mais alguns malucos em outros colchonetes, não muitos.

O Guru colocou uma fita cassete com um som da Enya (lembrem-se que o guru tinha mais de 150 anos) e arrancou. Aí começou a conduzir a meditação de maneira clássica:
“Vamos desconectar de todo o ambiente externo... Nesse momento vocês não estão no meio do rush da 23 de Maio... Agora comecem a imaginar que estão numa praia, ouçam o barulho do mar...”

O som da Enya até tinha um barulhinho de mar, só que o velhinho guiava, de fato, que nem velhinho. Ia acelerando e desacelerando o tempo todo como se tivesse pilotando uma máquina de costura. Chacoalhava tanto que parecia que estávamos em alto mar. Ele continuou:

“Agora vocês olhem para a luz do sol e deixe ela entrar na sua cabeça, nos seus olhos, nariz...”
Breve pausa e um grito.

“Vai, filha da puta, se quer entrar entra logo, não fica embaçando... fura fila do caralho!”

O trânsito da 23 era demais até para um mestre yogue de 158 anos.

Seguimos em duas horas de meditação. Intercalando praias, barulho de mar, buzinas, chacoalhadas e reclamações. Conseguimos andar da Liberdade ao Centro Cultural. Quando descemos Mayara perguntou:

“E aí, o que está sentindo?”
“Ah, me sinto um pouco calmo, um pouco estressado e um pouco idiota por pagar 100 pilas pra andar 500m.”
“Incrível como esse guru mexe com a cabeça da gente...”
“Inacreditável”

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